Tanto andou que chegou

Antes de mais, convém referir que o “Esta página tem como objecivo dizermo-vos quem somos e porque existe este espaço dedicado a vocês” refere-se unicamente ao oráculo de olho azul. Eu não dedico nada a ninguém (muito menos a “vocês” que não conheço de lado nenhum), e a única razão pela qual escrevo aqui é para o dito oráculo não me pôr fora de casa.

o castelo andante

Feito este pequeno esclarecimento, irei agora centrar-me no objecto deste post. “O castelo andante”, última obra-prima do grande senhor da animação japonesa Hayao Miyazaki, adaptado de uma obra de Diana Wynne Jones. Bem, eu era para vê-lo projectado numa tela enorme, sentado numa sala escura, mas um imprevisto qualquer aconteceu. Não me lembro muito bem qual, ou me faltou tempo e compania para tal ou caiu um asteróide no cinema a frente do qual já fazia fila. Acho que pela lógica, torna-se fácil eliminar o intruso. Pois foi… ficou uma cratera enorme. Mas fazem questão de reconstruí-lo, por isso…
Sempre que um novo Miyazaki entra na história, acaba sempre por brindar a espera dos fãs e cinéfilos mais exigentes com uma conclusão feliz. A promessa de cada produto do estúdio Ghibli (o estúdio do Miyazaki) é um sonho, e é o que nos tem proporcionado sempre, desde o muito antigo Tonari no Totoro (“O meu vizinho Totoro”, cuja estreia em Portugal, em qualquer formato, me é desconhecida) que, em criança, me fez sonhar e ainda agora consegue “aquele” efeito (a esta hora o DVD deve estar a caminho de casa ^^), passando pelas grandes obras que foram Porco Rosso, Princesa Monoke e A viagem de Chihiro, até este último conto para todas as idades.

A história do Castelo Andante começa com Sophie (mentira, começa com o próprio castelo andante, mas só aparece uns segundos e não diz nada a ninguém por isso…), jovem donzela que se consagra unicamente à chapelaria que o pai (ausente, se foi morto ou raptado por aliens, ninguém sabe) deixou, ou seja, vida social, népias. Enquanto caminha pela cidade (não se iludem, só vai ter com a irmã… não tinha vida social, estou a falar a sério), conhece o Hauru (Howl), feitiçeiro e dono do castelo andante, e é basicamente o amor (platónico) à primeira vista. Vítima de um ataque de ciúmes, a bruxa do nada lança um feitiço à anti-social que acorda com mais 80 anos em cima. Também não é motivo para grandes preocupações, todos temos dias maus, em que acordamos diferentes, mal dispostos. Enfim… A partir daí, mergulhamos sem pára-quedas para um mundo de magia onde Sophie irá integrar a tripulação do castelo andante e assim entrar em contacto com uma multidão de personagens mais carismáticas umas que as outras, do espantalho “cabeça de nabo” à bruxa do nada, passado pelo pequeno Marko, o exuberante e complexo Hauru ou até a doce e perigosa Sullivan.

Dizer que o Castelo andante é uma obra-prima da animação japonesa a nível técnico ou elogiar a composição musical de Joe Hisashi seria o mesmo que dizer que a Buffy era uma excelente série. É senso comum! ^-^ O filme é uma regalia para os olhos, seja nas cenas dentro do dito castelo como nas cenas em interacção com o universo “exterior” do filme. A magia encontra-se em qualquer canto e como qualquer outro Miyazaki, pode ser visto sob diferentes perspectivas, variando de idade para idade como de pessoa para pessoa. Mais do que uma simples história onde o bem e o mal se defrontam e aceitam (até porque essas noções são difíceis de aplicar às personagens), constitui também uma reflexão sobre as aparências, o tempo que passa e a necessidade do contacto com os outros, o que a protagonista irá apreender numa perspectiva nova, presa num corpo envelhecido por anos que não viveu. A sua descrição é sensível, madura, inteligente, tão bem como a do feitiçeiro que é apresentado, no início, como um herói infalível, mas que acabará por revelar ter os seus segredos e diferentes facetas emocionais, muito longe do arquétipo do herói bondoso, corajoso, firme e forte.

Se a história foi para muitos o elo fraco nesta criação, a mim pareceu-me perfeitamente bem construída. Sem querer revelar muito do filme (sim, porque se alguém comentar e falar em Spoilers, o oráculo não me irá matar, claro, mas é muito capaz de me obrigar a rever pela milésima vez um filme qualquer de Monthy Python), muitos elementos encontram respostas no seu fim. E a guerra, pintada como fundo da história geral, por mais estúpida que seja (e para além de ser um tema muito próprio do Miyazaki, que viveu o bombardeamento de Tóquio na sua infância… para ver fica também a sua outra obra-prima, Hotaru no Haka, cuja tradução só conheço em francês), acaba por encontrar os seus fundamentos, isso claro, se prestarmos atenção aos diálogos, principalmente os de Sullivan. De qualquer modo, não me lembro de ver um Miyazaki e não me sentir tentado a voltar a vê-lo, logo, tanto as suas histórias aparecem sempre como uma verdadeira viagem num sonho disparatado, mágico e encantador.

Acho que esse filme, como todos os outros, poderiam ser propostos ao público que Miyazaki, na altura da viagem de Chihiro descreveu como “todos os que têm 10 anos ou que já tiveram”. Haveria uma análise completa a realizar sobre a obra, analisando por exemplo os cenários (que me lembraram uma França do tempo da realeza), as personagens, as suas evoluções, a maneira como todas usam, de um modo ou de outro, um disfarce, o mundo no qual interagem, a sociedade que o povoa, o porquê do público não ter sido tão unânime como costumava ser e até o porquê de agradecer a Deus por Miyazaki não se ter reformado, como planeara, mas… depois falamos!

Nota:

One thought on “Tanto andou que chegou

  1. Marisa Fernandes diz:

    Só queria fazer um pequeno reparo: Hotaru no Haka não é de Miyazaki, mas sim de Isao Takahata (e sim, a história é baseada nas vivências do autor durante a 2ª Guerra Mundial).

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